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BMW diz que “motores de combustão nunca vão desaparecer”

Carro BMW azul escuro elétrico exposto em sala moderna com carregador elétrico na parede.

Jochen Goller, membro do conselho de administração da BMW com o pelouro de marcas, clientes e vendas, foi perentório numa entrevista recente à Autocar India: “os motores de combustão nunca vão desaparecer. Nunca.”

A frase não é um mero soundbite. Embora a BMW esteja a canalizar milhares de milhões de euros para a sua plataforma elétrica Neue Klasse - que chega em 2025 e estreia esta nova geração com o novo iX3 -, a marca de Munique deixa claro que não tenciona virar a página aos motores de combustão.

Mais do que uma opinião isolada, a posição da BMW espelha uma constatação que se tem tornado cada vez mais óbvia no setor: durante mais tempo do que se previa há poucos anos, os motores de combustão deverão coexistir com as motorizações elétricas, em vez de serem substituídos de forma rápida e total.

Esta coexistência só poderá ser encurtada se a intransigência da União Europeia quanto à proibição dos motores de combustão em 2035 se mantiver intacta. Só que, neste momento, os sinais vindos de Bruxelas são tudo menos lineares.

Uma indústria em reajuste

A leitura da BMW surge numa fase em que quase todos os construtores estão a recalibrar os planos de eletrificação. A quebra de procura em alguns mercados, o preço elevado das baterias e a incerteza regulatória estão a empurrar várias marcas para soluções intermédias e para uma abordagem menos rígida.

Nesse regresso ao “meio-termo”, as motorizações eletrificadas recuperam protagonismo como ponte entre a combustão e a eletrificação total. Entre essas alternativas, começa a ganhar peso uma fórmula que, até há pouco tempo, era vista como de nicho: os EREV (veículos elétricos com extensor de autonomia).

Há exemplos claros deste reposicionamento. A Porsche, por exemplo, confirmou que vai continuar a desenvolver híbridos mesmo com o crescimento da sua oferta 100% elétrica. Do mesmo modo, a Mercedes-Benz tem vindo a ajustar a estratégia da família 100% elétrica EQ depois de resultados comerciais abaixo do esperado em determinados mercados. E, pelo caminho, até a discussão sobre carros mais “acessíveis” voltou a entrar na agenda.

Neste enquadramento, a mensagem da BMW encaixa na tendência dominante: a eletrificação é inevitável - mas não se resume aos 100% elétricos.

Um fator adicional, muitas vezes subestimado, é a gestão de risco industrial. As marcas precisam de garantir fornecimentos, capacidade produtiva e margens num período em que a cadeia de valor das baterias ainda está a estabilizar. Manter motores de combustão, híbridos plug-in e EREV em paralelo com elétricos permite responder a oscilações de procura sem travar fábricas nem comprometer volumes.

Também o consumidor influencia este compasso. Custos de utilização, dúvidas sobre degradação de baterias, valor de revenda e rotinas de carregamento continuam a pesar na decisão de compra. Em mercados como Portugal, onde a rede de carregamento evolui mas ainda não é homogénea e onde a sensibilidade ao preço é elevada, a oferta de soluções híbridas e de combustão pode ser determinante para manter competitividade.

Estratégia multi-energias da BMW: Neue Klasse, combustão e híbridos plug-in

Para o futuro, a BMW organizou a sua estratégia em três arquiteturas distintas. A Neue Klasse, dedicada exclusivamente a veículos elétricos, é o eixo central da aposta na mobilidade de zero emissões.

Em paralelo, a marca está a desenvolver uma plataforma própria para modelos de entrada com motor de combustão. Ao mesmo tempo, mantém uma arquitetura flexível para berlinas e SUV de maior porte, preparada para acolher motorizações elétricas, híbridas plug-in ou de combustão.

Esta estratégia multi-energias dá à BMW maior agilidade perante realidades muito diferentes entre mercados. Onde a infraestrutura de carregamento é escassa - ou onde os elétricos continuam demasiado caros face ao poder de compra -, preservar alternativas a gasolina ou híbridas torna-se crucial para proteger volume e competitividade.

Uma União Europeia que só atrapalha

Na União Europeia, continua em vigor a meta de 2035 para terminar a venda de automóveis novos com motorizações a combustão, mas têm sido debatidas várias exceções. Na prática, isso pode abrir espaço para que híbridos plug-in, motores com extensor de autonomia e até motores preparados para combustíveis sintéticos continuem a equipar carros novos depois de 2035. A decisão foi empurrada para 2026, mantendo o tema em aberto.

É neste contexto que Oliver Zipse, CEO da BMW, classificou a rigidez de Bruxelas como um “grande erro”, lembrando que a política atual não contabiliza, por exemplo, emissões associadas ao fabrico de baterias ou ao modo como a energia é produzida e fornecida.

Se a União Europeia optar por uma regulamentação mais flexível, construtores como a BMW poderão estender por mais tempo a vida das motorizações tradicionais, agora ajustadas a combustíveis mais limpos. O problema, porém, está na demora das decisões e nas mudanças sucessivas de direção - algo incompatível com um setor que exige previsibilidade, além de consenso político e social.

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