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A Saab propõe montar 72 aviões de combate Gripen E/F e 6 aviões-radar GlobalEye no Canadá.

Homem em colete de segurança vermelho explica projetos de aviões militares a equipa numa base aérea com avião ao fundo.

À medida que as tensões políticas com os Estados Unidos se agravam e a despesa com a defesa aumenta, o plano canadiano para os caças está a ser desfeito por novas propostas industriais e por avaliações militares incisivas.

Como o Canadá chegou ao ponto de reconsiderar o acordo dos F‑35

Em 2022, o Canadá escolheu o F‑35A de fabrico norte-americano para substituir os seus envelhecidos CF‑18 Hornet, encerrando uma longa e polémica saga de aquisição. A decisão surgiu após um processo competitivo em que o principal concorrente foi o JAS‑39 Gripen E/F da Saab. O F/A‑18 Super Hornet da Boeing foi eliminado, enquanto o Rafale da Dassault e o consórcio Eurofighter já tinham abandonado a disputa.

Ottawa comprometeu-se então com a compra de 88 F‑35A à Lockheed Martin. Dezasseis aeronaves já foram encomendadas de forma definitiva. No papel, o resto do negócio deveria ser apenas uma formalidade.

Isso mudou em março de 2025. Num contexto de disputas diplomáticas e comerciais com Washington, o governo canadiano deu a entender que voltaria a analisar a compra dos F‑35. O anúncio reabriu de imediato um confronto político e militar sobre o futuro do poder aéreo do Canadá.

Um veredicto militar duro sobre Gripen vs F‑35

A Real Força Aérea Canadiana (RCAF) deixou clara a sua preferência: quer os 88 F‑35A, e não uma frota mista que inclua aviões europeus.

A pontuação interna da competição original deu ao F‑35 uma vantagem esmagadora em capacidade de combate: 95% contra apenas 33% para o Gripen.

Segundo documentos de avaliação divulgados e citados pelos meios canadianos, o F‑35 obteve 57,1 pontos em 60 no critério de capacidades militares. O Gripen da Saab ficou-se pelos 19,8. A diferença ajuda a perceber porque razão o governo de Justin Trudeau acabou por romper uma promessa anterior de não comprar o F‑35.

Para a RCAF, dividir agora a aquisição faz pouco sentido. Um relatório interno, referido pela Reuters, argumentava que repartir a compra entre F‑35 e outro caça seria “insensato” do ponto de vista militar. A antiga alta responsável da defesa Stefanie Beck apoiou essa posição em depoimento parlamentar antes de sair do cargo numa remodelação governamental.

Nem todos em Ottawa aceitam esse raciocínio. A ministra da Indústria, Mélanie Joly, defendeu que o argumento da “frota única” é uma desculpa conveniente, lembrando que todos os países do G7 operam frotas de combate mistas e, ainda assim, conseguem integrá-las nas suas estruturas de defesa.

O contra-ataque da Saab: construir os aviões no Canadá

Neste clima tenso, a Saab apresentou uma nova proposta agressiva. Segundo notícias da imprensa canadiana, o grupo sueco propôs montar uma parte significativa das suas aeronaves em solo canadiano:

  • 72 caças multifunções JAS‑39 Gripen E/F
  • 6 aeronaves de alerta aéreo antecipado e controlo GlobalEye

Todos seriam construídos no Canadá, com a Saab a afirmar que o plano poderá gerar cerca de 12.600 empregos.

A Saab não está apenas a vender aviões; está a propor um polo aeroespacial canadiano ligado a emprego tecnológico de longo prazo.

A oferta do GlobalEye é particularmente estratégica. A aeronave baseia-se no jato executivo Global Express 6000 da Bombardier, uma plataforma canadiana. A Saab propõe converter e equipar estas células com radar avançado e sistemas de missão, unindo na prática tecnologia de defesa sueca com fabrico aeroespacial canadiano.

Simon Carroll, presidente executivo da Saab Canada, apresentou a proposta como uma solução “soberana”, prometendo capacidades avançadas de combate e vigilância, ao mesmo tempo que canaliza competências, tecnologia e investimento para a indústria canadiana.

Porque é que o GlobalEye interessa a Ottawa

O GlobalEye é uma plataforma AEW&C (alerta aéreo antecipado e controlo). Transporta um radar poderoso capaz de detetar aeronaves, navios e alguns alvos terrestres a longa distância. Para um país com o enorme espaço aéreo e os acessos árcticos do Canadá, esse tipo de cobertura radar persistente tem forte apelo político.

Integrar caças e aeronaves AEW&C de um único fornecedor também oferece um pacote coerente: formação partilhada, contratos de apoio comuns e um único ecossistema industrial.

A Lockheed Martin defende a pegada industrial do F‑35

A Lockheed Martin respondeu rapidamente à jogada da Saab, sublinhando que o Canadá já está profundamente integrado na cadeia de fornecimento do F‑35.

A empresa afirma que mais de 110 firmas canadianas fornecem componentes para o F‑35, com um potencial valor industrial de 15,5 mil milhões de dólares canadianos até 2058.

Segundo o fabricante norte-americano, cada F‑35 incorpora componentes canadianos no valor de mais de 3,2 milhões de dólares canadianos. Essas peças entram em todos os aparelhos produzidos, e não apenas nos destinados à Real Força Aérea Canadiana.

A Lockheed Martin também destaca os efeitos indiretos. Muitas empresas canadianas, afirma, usaram a experiência adquirida com o F‑35 como trampolim para conquistar novos contratos no mercado global aeroespacial e de defesa. A mensagem visa uma preocupação central do governo canadiano: competitividade a longo prazo, e não apenas pacotes de trabalho pontuais.

Aspeto Caminho F‑35 Caminho Saab Gripen/GlobalEye
Pontuação na avaliação de combate 95% (57,1/60) 33% (19,8/60)
Presença industrial Cadeia global de fornecimento, 110+ empresas canadianas Montagem local das aeronaves no Canadá
Empregos em destaque Emprego distribuído de longo prazo até 2058 Cerca de 12.600 postos ligados ao programa de montagem
Pacote Apenas caças furtivos Caças mais AEW&C GlobalEye

Política, tarifas e um governo à procura de alternativas

O momento da proposta da Saab não é casual. As relações com Washington têm estado sob pressão devido às tarifas dos EUA impostas pelo Presidente Donald Trump, que afetaram setores canadianos e alimentaram em Ottawa apelos a uma maior diversificação de fornecedores de defesa.

Segundo uma reportagem da CBC News, os planos da Saab despertaram “forte interesse” no governo do primeiro-ministro Mark Carney. Os responsáveis verão a proposta sueca como um instrumento para diversificar as fontes de equipamento e, ao mesmo tempo, apoiar setores prejudicados pelas medidas comerciais dos EUA.

O Canadá também se prepara para aumentar a despesa em defesa em 82 mil milhões de dólares canadianos nos próximos cinco anos. Os ministros querem retirar o máximo benefício local desse investimento. Um projeto que crie empregos visíveis nos polos aeroespaciais, ao mesmo tempo que fixa linhas de conceção e montagem no Canadá, encaixa perfeitamente nessa agenda.

Onde se encontra a opinião pública

No plano interno, a Saab parece ter vantagem. Uma sondagem recente da Ekos mostra uma inclinação clara para os aviões suecos:

  • 43% dos inquiridos apoiam a compra do Gripen para substituir os CF‑18
  • 29% preferem uma frota mista Gripen/F‑35
  • Apenas 13% apoiam uma força composta exclusivamente por F‑35

Estes números dão margem política aos decisores, caso optem por afastar-se de um caminho puramente centrado no F‑35, ou pelo menos por reabrir a hipótese de uma compra repartida, apesar das objeções da RCAF.

Porque são as frotas mistas tão controversas

No centro da discussão está um dilema clássico do planeamento de defesa: flexibilidade versus complexidade.

Uma frota de tipo único simplifica a formação de pilotos, a logística, as peças sobresselentes e a manutenção. Atualizações de software, integração de armamento e ferramentas de planeamento de missão passam a girar em torno de uma única plataforma. A RCAF, que já enfrenta dificuldades com pessoal e atrasos na manutenção, aponta estas eficiências como uma necessidade estratégica.

Uma frota mista acrescenta opções, mas também mais atrito. Dois tipos de caça significam dois conjuntos de simuladores, cursos técnicos, contratos de apoio e armazéns cheios de peças diferentes. Coordenar missões entre plataformas com sensores, ligações de dados e desempenhos distintos cria desafios de integração que não desaparecem só porque outros países do G7 os conseguem gerir.

Por outro lado, uma combinação de aeronaves reduz a dependência de um único fornecedor estrangeiro e de um único ecossistema de software. Pode criar margem de negociação e distribuir trabalho industrial por mais parceiros. A Saab e os seus aliados no Canadá apostam que, no atual ambiente geopolítico, a diversificação ganhou peso político adicional.

Conceitos-chave: caças furtivos e alerta aéreo antecipado

O F‑35 é um caça furtivo de quinta geração, concebido para ser difícil de detetar por radar e para fundir dados dos seus próprios sensores com os de plataformas aliadas. Num conflito de elevada intensidade, como a defesa do espaço aéreo da NATO na Europa ou a dissuasão de um adversário de nível semelhante, essa combinação de baixa observabilidade e partilha de informação é central na doutrina dos EUA.

O Gripen E/F segue uma lógica diferente. É menos furtivo, mas foi otimizado para custos controlados, tempos de preparação rápidos e elevadas taxas de missões. Forças aéreas pequenas valorizam-no pela capacidade de operar a partir de bases dispersas e relativamente austeras. Para o Canadá, com muitos locais avançados de operação em regiões remotas, essa robustez tem atrativo, embora não tenha sido suficiente para compensar a diferença de pontuação na avaliação original.

O GlobalEye enquadra-se numa categoria distinta, mas complementar. Uma aeronave AEW&C voa alto e observa longe, funcionando como estação radar aerotransportada e posto de comando. Num cenário canadiano, um par de GlobalEye poderia vigiar amplas áreas dos acessos ao Árctico ou ao Atlântico, coordenando em tempo real caças, meios navais e radares terrestres.

O que está em jogo na decisão final de Ottawa

A decisão final do Canadá irá moldar mais do que apenas a sua futura frota de caças. Definirá o rumo da política industrial de defesa, mostrará até que ponto Ottawa está disposta a afastar-se da predominância norte-americana em certas áreas e enviará aos eleitores uma mensagem sobre emprego e soberania.

Se o governo mantiver o plano integral dos F‑35, reforça a integração com as forças aéreas dos EUA e da NATO e aposta em ganhos de longo prazo através de uma cadeia global de fornecimento. Se avançar para a proposta da Saab, o Canadá ganha linhas de montagem visíveis no país, uma nova capacidade AEW&C e um segundo pilar de parcerias de defesa, aceitando em contrapartida maior complexidade e um afastamento do modelo preferido pela RCAF.

De uma forma ou de outra, a escolha terá efeitos no setor aeroespacial canadiano durante décadas, influenciando onde se formam engenheiros, onde se expandem fábricas e que bandeiras estarão nas caudas dos aviões que patrulham os céus da América do Norte.

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